Luís Carlos Luciano
Jornalismo e literatura se entrelaçam numa história de vida

Quem Sou

Nasci em 19 de julho de 1961, em Cambará (PR). Filho único.

Sobre a minha vida até os cinco anos consigo me lembrar vagamente de Salto Grande (SP), da prainha do rio com meus pais, do cinema, da multidão no futebol, indo pra roça de caminhão, das brincadeiras na rua e da casa dos avós em Ourinhos (SP).

A partir dos meus cinco anos até perto dos quatorze e depois, eventualmente, morei junto com minha mãe na casa dos Vieiras lá de Ourinhos.

Quando em São Paulo e sem ainda saber ler olhava, atento, os letreiros. Queria entender os dizeres. Desde cedo senti que havia algo entre eu e as letras.

Na casa dos patrões lia A Família Cristã, gibis, Tropico, Barsa e folheava o Estadão.

Gostava de carros, caminhões, motos, bicicletas e desenhos na tevê.

Minha mãe, após a separação, foi trabalhar como doméstica para essa família. Aceitaram-me como agregado.

Dona Pedra não me deixou para trás.

Primeiro em São Paulo. Depois de alguns anos retornamos para Ourinhos e, em 1979, viemos para cá.

Eu não me lembro o ano, mas por volta de 1975 minha mãe comprou uma casa em Ourinhos com as economias dela. Tínhamos, enfim, o nosso próprio lar.

Dona Pedra desdobrou-se no ofício por entender que o lar dos Vieiras seria uma boa influência para mim, além, obviamente, da necessidade de trabalhar. Não queria me ver na roça e subempregos.

Quando garoto eu ia para as fazendas. Aprendi cedo a andar a cavalo e lidar um pouco com o gado, a dirigir veículos, enfim.

Francisco de Paula Vieira, o seu Chico, quase não dava prosa, mas me ensinou a arrear cavalo e compareceu na missa de formatura no colégio agrícola junto com a esposa, dona Lúcia, e a minha mãe.

Apresentou-me a um dos donos da Usina São Luiz, Orlando Quagliato, para uma vaga quando recém-formado. Trabalhei por algum tempo nessa usina.

Minha mãe era muito dedicada e de confiança. Certamente não quiseram abrir mão dela, principalmente a dona Lúcia. Por sorte, talvez, me toleraram.

Nem tudo foi um oásis para nós, mas não tenho o que reclamar.

A vida não trata os fracassados e azarados com gentileza.

No meu caso, um pobre sem eira nem beira e nem tribeira, sem entender nada do mundo, a minha mãe trabalhando exaustivamente...

Um laboratório inesquecível.

Discrepância, mas era o que eu tinha. Hoje penso que poderia ter sido pior.

O que me levou a ir para o colégio agrícola, em regime de internato, aos quatorze anos, foi a vontade de ficar um pouco distante daquilo que não me pertencia.

Dona Pedra ficou por mais de quinze anos naquela casa. Já era tratada como da família. Algum tempo depois que ela saiu, o seu Chico e a dona Lúcia foram almoçar na nossa casa durante uma visita a Ourinhos.

A minha mãe tinha mãos de fada na cozinha. 

Eu via, por exemplo, a dona Lúcia como uma segunda mãe. Mais aberta ao diálogo e compreensiva.

Os Vieras foram, bem ou mal, uma referência, aliás, uma boa referência porque as decepções ajudam a gente a não se iludir tanto.

O seu Chico me deu uma bezerra, um chapéu, uma bota, cedeu o lugar dele no clube onde aprendi a nadar e me deu pitos.

Em São Paulo, em 1970, o filho dele, o Paulo, dez anos mais velho que eu, junto com o primo dele, o Zé Henrique, me deu uma monareta de Natal.

São coisas impossíveis de se esquecer, assim como a convivência no dia a dia. 

Quase não tenho memória do meu pai quando criança. A ideia que ficou é do abandono. 

Retribui o seu Chico com uma crônica, Mineiro Forte, publicada no Diário MS e depois em Douradices, p. 55 e 56, quando ele morreu em Dourados no dia 16 de julho de 2003 aos 83 anos.

Em relação aos avós maternos tive pouca convivência, porém, marcante. A conversa era diferente. Eles eram pessoas da roça. Até parece que não existia afeto, mas era a maneira de ser. Quando minha mãe se separou ficamos com eles por algum tempo.

Os avós paternos eu nem conheci. Ou melhor, me lembro do avô me alertando para não mexer na adaga na cintura da calça, mas não consigo recordar sequer a silhueta dele.

Meu avô materno, Alfredo Rodrigues de Lara, me contaram, teve um sítio chamado Pedra Branca, em Ourinhos. Foi arrendatário, amansador de burro bravo, charreteiro, contador de causos e era de Santa Cruz do Rio Pardo (SP).

Minha avó, Claudina Maria de Lara, era de São Pedro do Turvo (SP). Meiga e sorridente.

Morreram em Bauru (SP) com pouca diferença de tempo. Meu avô passou dos 90 anos e minha vó chegou perto disso.

Sobre a minha mãe tenho tanta coisa a dizer que não caberia neste espaço. Ela nasceu em Santa Cruz do Rio Pardo. Foi minha heroína de avental. Devo muito a ela. Retribui com intenso carinho e agradecimento infindável.

Era de muita fé e nos últimos anos se dedicou de corpo e alma como Testemunha de Jeová.

Ela fez de tudo para que eu estudasse. Entrei no primário com seis anos. Ela se dizia orgulhosa por eu ter me achado profissionalmente no jornalismo e ter escrito livros. Dizia que tinha cumprido sua missão em relação a mim.

Ficamos longe durante um bom período nos encontrando apenas uma ou duas vezes por ano.  

Esperava a aposentadoria para ficar mais tempo com ela. Me aposentei em dezembro de 2018 e ela morreu em 2 de junho de 2019 aos 83 anos.

Sobre o meu pai só restou um borrão. Reecontrei-o, por iniciativa de uma meia-irmã, a Eliane, em Guarulhos (SP) quando eu tinha uns 35 anos. Meu filho Leonardo, deveria ter uns quinze, estava junto. Foi como ver um desconhecido. Um abraço frio. Conversamos, trocamos olhares e almoçamos juntos.

Na época ele disse ter um comércio em Caraguatatuba, no litoral paulista. Fui embora na tarde do mesmo dia. Nunca mais o vi. Morreu em 2017. 

O primeiro romance infantojuvenil a me impactar no ginasial foi Sem Família, de Hector Maloc, certamente por conta da minha condição. Com o tempo li vários autores, mas só na faculdade passei a entender melhor a literatura.

Estudei o primário em São Paulo, o ginasial em Ourinhos e o antigo segundo grau no colégio agrícola de Cândido Mota (SP) - era o segundo mais novo de uma turma com mais de 300 alunos, uma boa parte maior de idade e atrasada nos estudos. Formei-me em 1978, aos dezessete anos.

Me esforçava apenas para passar.

Admirava quem sabia escrever e, talvez, por isso, o saber escrever virou uma obsessão quando conheci uma redação de jornal.

Entre novembro e dezembro de 1979 vim para Dourados prestar o vestibular de Agronomia na UFMS, não passei, mas acabei ficando por aqui. Ourinhos tinha menos opções. Os Vieras tinham vindo de mudança naquele mesmo ano e a minha mãe junto. Tive um lugar pra ficar.

Logo comecei a trabalhar. Inicialmente com o veterinário Valdir Perusso antes e quando ele abriu a Central Veterinária. Conheci-o no cursinho pré-vestibular. Era professor de Biologia. 

Ainda em 1980 trabalhei na escola Silva Melo do Flaviano Januário da Silva, e na Aviação Agrícola Teruel.

Posteriormente na Fazenda Itamaraty, no setor de tráfego aguardando, em vão, uma vaga como Técnico em Agropecuária.

Em 1981 conheci, por acaso, o jornalista Lucimar Couto (campograndenews) no pensionato da dona Ramona. Numa conversa eu disse que procurava trabalho e além de técnico era datilógrafo.

Aquela noite virou a chave na minha vida.

A imprensa da prefeitura precisava de um datilógrafo e ele disse que eu deveria procurar o jornalista Júlio Marques de Almeida, o assessor. Lucimar trabalhava na folha de dourados.

No dia seguinte me apresentei ao Julinho.

Ele me contratou ao ver a rapidez e poucos erros.

Escrevi também uma crônica sobre o Julinho publicada em Douradices, p.17 e 18.

Era abril de 1981.

Para se ter uma ideia da jornada do tempo, me aposentei na assessoria depois de quase 39 anos.

Conectei-me e me entreguei por inteiro ao ambiente. Foi o meu primeiro emprego decente.

Eu cheguei a fazer o curso de datilografia antes dos quatorze e no ginásio datilografava meus trabalhos.

Estava acostumado com a analógica. Agora tinha uma elétrica.

Além de digitar convites para inaugurações, eventos e sempre em prontidão, no final da tarde eu passava a limpo as matérias dos redatores após as revisões. Os boletins precisavam chegar às redações dos jornais.

Acompanhava os eventos, gravava as falas, era pau pra toda obra.

Do dedillhar aos rascunhos iniciais foi só questão de tempo.

Foi intenso, transformador, desafiador, pedagógico e controverso. Muito bom.

Era o meu novo mundo confuso de ser.

O meu amadurecimento foi na raça. Fui um prático, na força de vontade. 

Em O Progresso, da dona Adiles do Amaral Torres, comecei ajudando o Vander Verão, editor-chefe do jornal, após o expediente da prefeitura.

Trabalhei 20 anos ali chegando a editor-adjunto. 

Foi uma escola a mais dando visibilidade ao meu trabalho.

Vinte anos depois, em 2002, pedi as contas desapontado e, sem ter nada em vista pedi emprego no concorrente: o Diário MS onde me abraçaram e depois me apertaram. Trabalhei, em datas alternadas, como editor do caderno 2, Cidade, Opinião, Esporte, Região e editorialista. Permaneci até final de 2003.

Ingênuo e romântico, por um bom tempo achei o ambiente revolucionário.

O Progresso e Diário MS não existem mais na versão impressa.

Exercitar o jornalismo é vivenciar o conflito como o ar que se respira.

A jornada de trabalho de cinco horas diárias facilitava a acumulação.

Eu fazia jornada dupla e eventual free-lance.

Precisava trabalhar dobrado para me sustentar. 

Iniciei na década de 80 o curso de Letras na UFMS, mas não conclui. 

Fiz o vestibular para Jornalismo na UFMS em Campo Grande e não passei, mas, no mesmo ano, fui aprovado para Letras com Ênfase em Jornalismo na UNIGRAN. Conclui o curso em dezembro de 1998.

Acho que o destino deu um empurrão. As aulas avançadas de Português e de Literatura iluminaram meus textos. Adquiri um ativo melhor.

Aprendi e corrigi meus erros e vícios gramaticais e, estimulado pelas aulas de Literatura, esbocei em O Progresso a crônica Rodando o Lero baseando-me num carro falante.

O Herbie do icônico filme e meu fusca amarelo me inspiraram.

Em 2003 conclui a Especialização na UFMS, em Letras, com concentração em Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa. O meu artigo científico: O trabalho literário de Nicanor Coelho, disponível neste site na seção dos livros.

Por alguns meses mantive uma crônica semanal mais madura no Diário MS, publicada às segundas-feiras como parte da coletânea Coçando o Verbo.

Também passei, como free-lance, pela folha de dourados, Rádio Grande FM (92 FM) e site douradosinforma.

Em 2003, antes de sair da empresa, escrevi O Fenômeno Diário MS: dez anos de um sonho que está dando cada vez mais certo. Ideia da direção. Fui disponibilizado para tal. Era para ter sido lançado em 10 de setembro de 2003, aniversário do jornal, mas abortaram o livro em meio ao silêncio e sussurros.

Imprimi, de forma simbólica e sem alarde, apenas dez exemplares distribuídos entre almas gêmeas e, na festa de aniversário do jornal, dei de presente um exemplar para o proprietário, Vitoriano Carbonera Cales. Pego de surpresa, aparentemente gostou do que viu.

Aliás, eu escrevi uma crônica sobre isso, O livro quase mesto, publicada no próprio Diário MS e depois no Tereré, poeira e outras raízes douradenses, p. 127 e 128.

Afinal, esse livro era o meu primogênito.

Entre 2004 e 2005 me debrucei na biografia póstuma do coronel José Alves Marcondes com o título Triunfo e Glória de um Guerreiro lançada neste site em 2011 e revisada em 2020. A família me contratou para escrevê-la, mas não houve consenso, por parte dela, para uma edição impressa. Trata-se da minha mais densa pesquisa misturando história, depoimentos e ficção. Tá disponível gratuitamente neste site.

Talvez fosse azarado, até então, para ver meus livros publicados.

Um ano depois, em 2006, os ventos começaram a soprar a favor. Relatei a história da Câmara de Dourados com breve currículo dos prefeitos até aquele ano com o título: 71 Anos do Legislativo de Dourados, lançada em dezembro de 2006 como parte das atividades de aniversário da cidade. Livro feito sob encomenda da professora, vereadora e na época presidenta da casa, Margarida Gaigher. 

Em 2007 trabalhei, a convite do arquiteto Luiz Carlos Ribeiro, na obra Ribeiro: Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente – Exercício de Cidadania, lançada em 2008. Uma obra tida como de intervenção nas ideias conservadoras para melhorar a cidade, o trato da coisa pública e a política.

Em 2014 lancei Betânia, meu primeiro romance ambientado em Dourados. Verba do fundo cultural do Estado. 

Em maio de 2015, ACED 70 Anos, história da Associação Comercial e Empresarial de Dourados. Livro patrocinado pela entidade e proposto pelo presidente Antônio Nogueira e pelo diretor Everaldo Leite Dias.

Em dezembro do mesmo ano Tereré, poeira e outras raízes douradenses com crônicas editadas e que na versão original estão publicadas neste site (coletânia do Coçando o Verbo). Verba do fundo cultural do Município. 

Em 2016 lancei outro livro de crônicas: Douradices, projeto também aprovado pelo FIC. (O que sobrou do Coçando o Verbo e outros textos publicados aleatoriamente).

Em 2025 editei, a convite da família, o livro póstumo O Canto do Passarinho - José Marques Luiz em prosa e verso.

Em setembro de 1999 ganhei o prêmio Aracanga de jornalismo impresso; em 2005 e 2006 na mídia online e moções legislativas pelo lançamento de Betânia e ACED 70 anos.

Sou filho de Aluízio Luciano e Pedrina Rodrigues Machado.

Casado com a professora Lourdes Cecília. Dois filhos: Leonardo Lopes Luciano e Luís Carlos Luciano Júnior.

Membro da Academia Douradense de Letras (ADL), cadeira 34, tendo como patrono Hélio Serejo.

Registro profissional nº 253 (DRT/MS).

Presidente do Clube de Imprensa de Dourados (CID), de 1991 a 1993.

Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais na Região da Grande Dourados (Sinjorgran) por três mandatos (2005-2008/2008-2011 e 2014-2017).

Diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) por quatro mandatos (2007-2010/2010-2013/2013-2016/2016-2019).

Ninguém é honesto o bastante ao falar de si. Então, eis-me nesse traço autobiográfico.

 

Dourados (MS), março de 2026.