Luís Carlos Luciano
Quem Sou
Nasci em 19 de julho de 1961, em Cambará (PR). Morávamos numa fazenda. Filho único.
Morei depois em Salto Grande (SP), Ourinhos (SP), São Paulo, capital, onde fiz o primário e Cândido Mota (SP). Moro em Dourados (MS) e Bauru (SP).
Antes dos cinco anos me lembro vagamente da nossa pequena casa em Salto Grande perto do cemitério, dos passeios na prainha do Rio Paranapanema, do cinema, da multidão no futebol aos domingos, dos dias que ia junto pra roça de caminhão, das brincadeiras na rua e da casa dos avós e tios, estes ainda jovens, em Ourinhos.
Dos meus cinco anos de idade até perto dos quatorze e depois, de forma esporádica, morei junto com minha mãe numa casa de família rica de Ourinhos ligada ao agronegócio, os Vieiras, ambiente sereno, relativamente rígido, de pouca conversa.
Em meio ao conforto e ao relativo luxo haviam livros, jornais, revistas e gibis que, de pronto, me cativaram.
Quando analfabeto me sentia atraído pelos painéis e letreiros luminosos das lojas em São Paulo. Queria entender. Uma vez alfabetizado a dúvida se tornou maior. Desde cedo senti que havia algo entre eu e as letras. Gostava dos textos curtos e ilustrações da revista A Família Cristã e dos gibis.
Porém, gostava mais ainda dos carros, caminhões, motos e eletrodomésticos, além dos desenhos e programas na tevê preto e branco, uma novidade.
Minha mãe, após a separação, foi trabalhar como doméstica com essa família. Aceitaram, coisa pouco comum, eu junto. Primeiro em São Paulo, capital, na casa usada também como escritório, depois de alguns anos retornamos para Ourinhos e, por fim, Dourados.
Dona Pedrina desdobrou-se naquele emprego por entender que o ambiente seria uma boa influência para mim. Não queria me ver na roça e subempregos. Bancou-me até o segundo grau e certamente bancaria a faculdade.
Não buscou outro casamento. Entendia que um futuro marido não me aceitaria. Só foi se casar depois que eu casei.
Eu sempre ia com os Vieiras para a fazenda onde aprendi a andar a cavalo, arreá-lo e lidar um pouco com o gado, a dirigir veículos, mas nunca cheguei a trabalhar fixo com eles. Ajudava no que era possível.
O patriarca, Francisco de Paula Vieira, uma vez me disse que eu deveria trabalhar com gente rica. Não entendi naquele momento. Talvez eu fosse um fardo, um garoto sem iniciativa, lento e meio perdido.
Minha mãe era muito trabalhadeira, dedicada e de confiança. Não quiseram abrir mão dela e me toleraram.
Sempre senti um ruído, uma certa tensão e eu não podia fazer nada a não ser obedecer, esquecer, fazer as pequenas tarefas ordenadas e deixar o tempo passar. Isso seria previsível. O lar não era meu. De qualquer forma eu estava no lucro. Hoje eu vejo assim.
Um pobre sem eira nem beira, sem entender nada do Mundo, vivendo na casa de rico, vendo os costumes, a vida deles, as roupas, os carros e o jeito de ser. Um laboratório que jamais esqueci. Se é verdade que a gente nasceu pra querer, eu queria também tudo aquilo.
Dona Pedrina ficou por mais de 20 anos com eles, só indo embora após meu casamento em novembro de 1982 quando voltou para a nossa casinha em Ourinhos.
A dona Lúcia, a patroa, sempre me tratou bem e eu a tinha como uma segunda mãe.
O único filho deles, o Paulo, dez anos mais velho. Ele e o primo, Zé Henrique, estudando em São Paulo, anos 70, me deram uma monareta azul. A maioria dos garotos da rua tinha ganhado bicicleta no Natal.
Eles foram, bem ou mal, minha referência, aliás, uma boa referência.
Seu Francisco me deu uma bezerra, um chapéu, uma bota e cedeu lugar no clube com piscinas e tudo mais.
Retribui com uma crônica, Mineiro Forte, publicada inicialmente no Diário MS e depois em Douradices, p. 55 e 56, quando ele morreu em Dourados no dia 16 de julho de 2003 aos 83 anos.
Dona Lúcia morreu se não me engano em 2013 também com mais de 80 anos.
O Paulo não me avisou. Fiquei sabendo uns dois dias depois quando fui na casa dela. Já vinha doente. Sempre ia lá visitá-la.
Tive pouca convivência com meus avós, mas me acolheram quando preciso. A conversa era diferente. Eles eram pessoas simples, igualmente de pouca prosa e não davam muita atenção para as crianças. Até parece que não existia carinho, mas era o jeito de ser. Quando minha mãe se separou ficamos com eles por algum tempo.
Meu avô, Alfredo Rodrigues de Lara, foi dono do sítio Pedra Branca em Ourinhos, arrendatário, amansador de burro bravo, pescador, charreteiro, contador de causos quando havia visita e teve uma família numerosa na região de Santa Cruz do Rio Pardo (SP). Esteve envolvido na Revolução Constitucionalista de 32, mas não sei algo mais. Ourinhos mobilizou-se por conta da divisa com o Paraná.
Minha avó, Claudina Maria de Lara, era de São Pedro do Turvo (SP). Meiga e silenciosa. Ambos não tiveram acesso aos estudos. Morreram em Bauru (SP), com pouca diferença de tempo. Meu avô passou dos 90 anos e minha vó chegou perto disso.
Sobre a minha mãe tenho tanta coisa a dizer que não caberia neste espaço. Foi minha heroína de avental. Devo muito a ela. Retribui com intenso carinho e agradecimento infindável. Resolveu se mudar de Ourinhos para Bauru por causa dos irmãos.
Era uma pessoa de muita fé e nos últimos anos se dedicou de corpo e alma como Testemunha de Jeová. Leu a Bíblia não sei quantas vezes.
Ficamos longe por vários anos nos vendo esporadicamente, na maioria das vezes nos finais de ano. Na era do smartphone a gente se falava quase todo dia.
Quando me aposentei tinha planejado ficar mais tempo com ela. Me aposentei em dezembro de 2018 e ela morreu em 2 de junho de 2019 aos 83 anos depois de um mês internada. Acompanhei-a até os últimos momentos.
Sobre o meu pai só restou um borrão. Reecontrei-o, por iniciativa de uma meia-irmã, a Eliane, em Guarulhos (SP) quando eu tinha uns 35 anos. Meu filho Leonardo, deveria ter uns 17 anos, estava junto. Foi como ver um desconhecido. Um abraço frio. Conversamos, trocamos olhares e almoçamos juntos.
Na época ele tinha um pequeno comércio em Caraguatatuba, no litoral paulista. Fui embora na mesma tarde. Nunca mais o vi. Morreu em 2017 se não me engano, perto do final do ano.
O primeiro livro a me impactar no ginasial foi Sem Família, de Hector Maloc, certamente por conta da minha condição. Com o tempo li vários outros autores, mas só na faculdade entendi os mestres da literatura.
Estudei o ginasial em Ourinhos e o antigo segundo grau no colégio agrícola de Cândido Mota (SP), em regime de internato. O pouco ou muito da malandragem aprendi ali. Era o segundo mais novo de uma turma de mais de 300 alunos, uma boa parte maior de idade e atrasada nos estudos. Formei-me Técnico em Agropecuária em 1978, aos dezessete anos.
Em janeiro de 1979, ainda menor de idade, trabalhei como técnico na Usina São Luiz, em Ourinhos, e por algum tempo depois na bomboniere da rodoviária.
Entre novembro e dezembro de 1979 vim para Dourados prestar o vestibular de Agronomia na UFMS, mas não passei.
Nesse período fiz free-lance com o veterinário Valdir Perusso indo para as fazendas ajudar a tirar sangue do gado para exame de brucelose e me fixei quando ele abriu a Central Veterinária. Conheci-o no cursinho pré-vestibular. Ele era professor de Biologia.
Antes de me fixar com o Valdir, em 1980, por um breve período trabalhei na secretaria da escola Silva Melo, do Flaviano Januário da Silva. Depois, em novembro de 1980, na Aviação Agrícola Teruel até janeiro do ano seguinte.
Algum tempo depois na Fazenda Itamaraty, no departamento de tráfego aguardando, em vão, uma vaga como Técnico em Agropecuária.
Em 1981 conheci, por acaso, o jornalista Lucimar Couto (campograndenews) no pensionato da dona Ramona. Numa conversa eu disse que procurava trabalho e além de técnico era datilógrafo. Aquela noite virou a chave na minha vida. Ele informou que a imprensa da prefeitura precisava de um datilógrafo e que eu deveria procurar o jornalista Júlio Marques de Almeida, o assessor. Lucimar trabalhava na folha de dourados.
No dia seguinte me apresentei ao Julinho, como era chamado. Ele me contratou na hora ao ver a minha destreza na máquina elétrica.
Era abril de 1981.
Tinha acabado de me achar profissionalmente e me conectar por inteiro com o ambiente.
Eu cheguei a fazer o curso de datilografia antes dos quatorze anos, pré-requisito na época, e durante o ginásio era o único aluno da sala a datilografar os trabalhos.
Estava acostumado com a analógica. Agora tinha uma elétrica, bem mais ágil.
Além de digitar convites para inaugurações, eventos e em prontidão, no final da tarde eu passava a limpo as matérias dos redatores após as revisões. Os boletins precisavam chegar às redações dos jornais.
Acompanhava os eventos, gravava as falas, era pau pra toda obra.
Do dedillhar aos rascunhos iniciais foi só questão de tempo. Encontrei-me. Foi intenso, transformador, pedagógico e controverso. Muito bom.
Era o meu novo mundo confuso de ser.
O meu amadurecimento foi lento e com obstáculos. Eu fui um prático. Tive que aprender na raça, na força de vontade. O curso de jornalismo, o mais próximo, só existia em Campo Grande. Não é fácil aprender o ofício e escrever.
Em O Progresso comecei ajudando o Vander Verão, editor-chefe do jornal, após o expediente da prefeitura. Já rascunhava alguma coisa.
Trabalhei 20 anos ali chegando a editor-adjunto, o segundo na hierarquia da redação.
Foi minha segunda grande escola.
Vinte anos depois, em 2002, pedi as contas desapontado e, sem ter nada em vista pedi emprego no concorrente: o Diário MS onde me abraçaram e depois me apertaram. Trabalhei, em datas alternadas, como editor do caderno 2, Cidade, Opinião, Esporte, Região e editorialista. Permaneci até final de 2003.
Esses dois jornais cresceram a toque de caixa naqueles idos, eram influentes e bem trabalhados, mas haviam se tornado uma selva, moedores de carne e cérebros. Empresas visando prioritariamente o lucro e defendendo os interesses da elite de comando e não o jornalismo em sua essência social e humanitária. Nada diferente dos dias atuais, mas no começo dos anos 80, por ingenuidade e romantismo, achava o ambiente revolucionário.
Não se questionava, publicamente, o sistema.
O Progresso e Diário MS não existem mais na versão impressa.
Eu sempre consegui conciliar o serviço público com a atuação privada, embora tivesse passado por alguns perrengues. A jornada de trabalho de cinco horas diárias facilitava a acumulação.
Eu fazia jornada dupla e eventual free-lance.
Nas duas oportunidades a ocupar um cargo de segundo escalão na prefeitura, abdiquei, obviamente, a parte privada e sempre procurei me distanciar dos conflitos de interesse entre os dois lados. Afinal, eu era apenas um trabalhador do ramo.
Foquei nos estudos, na leitura constante, na sobrevivência.
Iniciei na década de 80 o curso de Letras na UFMS, mas não conclui.
Na década de 90 fiz o vestibular para Jornalismo na UFMS em Campo Grande e não passei, mas fui aprovado para Letras com Ênfase em Jornalismo na UNIGRAN concluindo o curso em dezembro de 1998.
Durante o curso de Letras pude aprender e corrigir meus erros e vícios gramaticais e, estimulado pelas aulas de literatura, esbocei em O Progresso a crônica Rodando o Lero baseando-se num carro falante.
O Herbie do icônico filme e meu fusca amarelo me inspiraram.
Em 2003 conclui a Especialização na UFMS, em Letras, com concentração em Teoria da Literatura e Literaturas de Língua Portuguesa. O meu artigo científico: O trabalho literário de Nicanor Coelho, disponível neste site na seção dos livros.
Por alguns meses mantive uma crônica semanal no Diário MS, publicada às segundas-feiras com o título Coçando o Verbo, mais madura.
Também passei, como free-lance, pela folha de dourados, Rádio Grande FM (92 FM) e site douradosinforma.
Em 2003, antes de sair da empresa, escrevi O Fenômeno Diário MS: dez anos de um sonho que está dando cada vez mais certo. Ideia da direção. Fui disponibilizado para tal. Era para ter sido lançado em 10 de setembro de 2003, aniversário do jornal, mas abortaram o livro em ambiente de silêncio e sussurros.
Imprimi por conta própria, de forma simbólica e sem alarde, apenas dez exemplares distribuídos entre professores que me ajudaram na pesquisa, almas gêmeas e, na festa de aniversário do jornal, dei de presente um exemplar para o proprietário que, pego de surpresa, aparentemente gostou do que viu.
Afinal, esse livro era o meu primogênito.
Entre 2004 e 2005 me debrucei na biografia póstuma do coronel José Alves Marcondes com o título Triunfo e Glória de um Guerreiro lançada neste site em 2011 e revisada em 2020. A família me contratou e não bancou a impressão sem alegar um motivo plausível, apesar da divergência entre os herdeiros a respeito do conteúdo do livro. Trata-se da minha mais densa pesquisa misturando história, depoimentos e ficção. Tá disponível gratuitamente neste site.
Talvez fosse azarado, até então, para ver meus livros publicados.
Um ano depois, em 2006, os ventos começaram a soprar a favor. Relatei a história da Câmara de Dourados com breve currículo dos prefeitos até aquele ano com o título: 71 Anos do Legislativo de Dourados, lançado em dezembro de 2006 como parte das atividades de aniversário da cidade. Livro feito sob encomenda da professora, vereadora e na época presidenta da casa, Margarida Gaigher.
Em 2007 trabalhei, a convite do arquiteto Luiz Carlos Ribeiro, na obra Ribeiro: Arquitetura, Urbanismo e Meio Ambiente – Exercício de Cidadania, lançada em 2008. Uma obra tida como de intervenção nas ideias conservadoras para melhorar a cidade, o trato da coisa pública e a política.
Em 2014 lancei Betânia, meu primeiro romance ambientado em Dourados. Verba do fundo cultural do Estado.
Em maio de 2015, ACED 70 Anos, história da Associação Comercial e Empresarial de Dourados. Livro patrocinado pela entidade e proposto pelo presidente Antônio Nogueira e pelo diretor Everaldo Leite Dias.
Em dezembro do mesmo ano Tereré, poeira e outras raízes douradenses com crônicas editadas e que na versão original estão publicadas neste site (coletânia do Coçando o Verbo). Verba do fundo cultural do Município.
Em 2016 lancei outro livro de crônicas: Douradices, projeto também aprovado pelo FIC. (O que sobrou do Coçando o Verbo e outros textos publicados aleatoriamente).
Em 2025 editei, a convite da família, o livro póstumo O Canto do Passarinho - José Marques Luiz em prosa e verso.
Sou filho de Aluízio Luciano e Pedrina Rodrigues Machado.
Casado com a professora Lourdes Cecília. Dois filhos: Leonardo Lopes Luciano e Luís Carlos Luciano Júnior.
Membro da Academia Douradense de Letras (ADL), cadeira 34, tendo como patrono Hélio Serejo.
Registro profissional nº 253 (DRT/MS).
Presidente do Clube de Imprensa de Dourados (CID), de 1991 a 1993.
Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais na Região da Grande Dourados (Sinjorgran) por três mandatos (2005-2008/2008-2011 e 2014-2017).
Diretor da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) por quatro mandatos (2007-2010/2010-2013/2013-2016/2016-2019).
Dourados (MS), fevereiro de 2026.